quinta-feira, 20 de outubro de 2016

A PEC dos gastos públicos

Uma das primeiras coisas que tem aparecido para mim quando entro no Facebook nos últimos dias é um link para um vídeo patrocinado pela Empiricus Research. Nunca tinha clicado no link para ver o conteúdo, mas outro dia tive que fazê-lo devido a uma discussão, civilizada, sobre a PEC 241. O vídeo tem ar de respeito, mas, pelo contrário, em alguns pontos é um insulto à nossa inteligência. Ele começa e termina muito mal. O começo diz o seguinte:

“Se você é contra a PEC dos gastos públicos você é contra o Brasil”

Por que? Qual a lógica por trás disso? Adianto que depois de pesquisar um pouco decidi ser contra essa PEC, pois vejo que não será boa para o Brasil, mas apenas para uma ínfima minoria de brasileiros, esses sim, parecem não se importar muito com o Brasil, mas somente consigo e o poder que detêm.

O vídeo depois termina chamando partidários do governo anterior, sindicalistas e funcionários públicos de adolescentes mimados!

Tanto quanto o primeiro, esse não é argumento válido numa discussão. Isso é tentar desqualificar uma posição baseando-se num preconceito sem fundamentos. Estão aqui tentando atingir as pessoas que têm opiniões baseadas somente em intuição, sentimentos, emoções, mas não se baseiam na razão, pelo fato de não estarem acostumadas a isso, o que está associado ao nosso problema crônico de educação deficiente, não importando qual a sua classe social. Por isso que grande parte das discussões políticas no Brasil terminam com as pessoas se chamando de coxinhas ou petralhas. É o mesmo tipo de desqualificação, sem argumentos sólidos, da ideia da outra pessoa, baseada somente em preconceito e emoções negativas.

O vídeo é razoavelmente longo e após o começo desastroso, vai tomando seu ar de respeito e legitimidade. Estão tentando convencer pessoas esclarecidas, mas periodicamente aparecem conclusões saídas não se sabe de onde, obviamente com o intuito de convencê-las de apoiarem a PEC, mesmo sem ter argumentos fortes e realmente válidos para tanto.

Seguindo adiante vem um: “O Brasil está quebrado”

O engraçado é que parte dos atuais governantes fizeram de tudo para aprovar reformas aumentando os gastos públicos para piorar a situação financeira do país e enfraquecer o governo anterior. Jogo muito sujo feito em coordenação com a mídia e o judiciário, que foi bastante exitoso, assim como provavelmente será a aprovação dessa PEC se não houver mobilização contra pra valer.

Depois vem um dos argumentos mais fortes do vídeo: “Pense no Brasil como uma família” que está endividada e precisa conter os seus gastos. Tentam convencer as pessoas de que fazendo parte de uma família em crise financeira, elas precisam se conformar que devem gastar menos para não arrombar as contas de casa. Isso funciona muito bem para o controle financeiro pessoal e de uma família. Você gasta o quanto tem. Não pode gastar mais do que isso, ou tem que fazer empréstimos e depois ficar pagando juros para o resto da vida. Com uma nação isso pode funcionar de maneira um pouco diferente.

É fácil chegar para pessoas humildes e dizer para elas, me desculpe, mas a partir de agora você terá que gastar menos com lazer, guloseimas, eletrônicos e o bem estar da sua família em geral, e a mensagem subliminar aí é que saúde e educação fazem parte dos bens que você deverá parar de consumir do Estado. Com isso, tira-se toda a responsabilidade do Estado sobre o povo, sobre você. Vire-se! Mas então porque o Estado existe? Uma das respostas é: - manter o privilégio dos poucos que detém o poder sobre ele. Manter a grande camada social, pobre, aplastada e sem poder de reação para reivindicar o seu direito de viver com dignidade. É muito problemático que um Estado tente fazer com que seus cidadãos se conformem com a pobreza, com a falta de infraestrutura e de fornecimento de direitos básicos para a sua população.

Falando um pouco do que não entendo, parece que o estado brasileiro vem pagando juros elevadíssimos para credores que ninguém sabe ao certo quem são, no passado recente para controlar a hiperinflação que herdamos da ditadura, mas depois, aparentemente só para satisfazer os grandes detentores de capital, que acabam mantendo seu dinheiro investido e ganhando mais ainda através dos juros elevados, ao invés de se esforçar em produtividade e competitividade. O governo Dilma foi bastante agressivo baixando os juros e tomando outras medidas para tentar combater este problema, o que deixou esse pessoal muito enojado. A Dilma atacou um problema sério e de forma válida, porém não de forma competente.

Por que não se discute formas alternativas à PEC 241 seriamente? A tática do vídeo é apresentar a tal PEC como solução única aos problemas do Brasil, utilizando-se do medo para convencer as pessoas a apoiar uma coisa que é difícil de entender. Chega a dizer que deixaremos um país quebrado para nossos filhos se a PEC não for aprovada. Pelo que me consta, vivo em um país quebrado desde que nasci. Houveram poucos anos em que isso foi revertido, mas sem uma base sólida não durou por muito tempo.

Repetem no vídeo várias vezes sobre a gestão irresponsável das contas públicas gastando-se muito mais do que se arrecada, colocando obviamente a culpa no governo anterior, mas não explicam que para desestabilizar o governo anterior, várias medidas políticas e econômicas foram tomadas pelo congresso que está no poder para aumentar os gastos públicos. Temos sim um problema de equilíbrio nas contas, mas um problema que ocorreu somente desde 2014 e devido a uma baixa brutal no consumo e no preço de exportação das commodities, nas quais a economia brasileira veio se apoiando nos últimos governos. Infelizmente, o Brasil é uma grande fazenda. Mas a solução para esse problema não passa necessariamente pela PEC 241. Leia por exemplo este e este artigos.

Também tentam dar uma aparência de legitimidade ao vídeo mostrando gráficos, mas usam a falácia da ineficiência do Estado como causa das dificuldades financeiras que atravessamos. Os empresários mais poderosos no Brasil se utilizam descaradamente do Estados através de abatimento de impostos e todo tipo de favores que recebem para poder gerar empregos e girar a economia, mas sempre que podem culpam o Estado por tudo aquilo que não realizam pela sua própria ineficiência, ganância e a ideia de que ganhar dinheiro deve ser algo fácil, imediato, sem investir nem tempo nem dinheiro em educação e qualificação de seus funcionários.

O Brasil possui muitos problemas, em muitas áreas distintas e alguns muito complexos, mas justamente por isso, devem existir muitas formas de solucioná-los, principalmente a longo prazo e investindo-se em educação e desenvolvimento através de pesquisa e ciência, áreas que vêm sendo atacadas constantemente pelo novo governo. Simplesmente congelar os gastos públicos por 20 anos é uma medida desesperada que pode ser muito ineficiente. Assim como o preço das commodities caiu abruptamente, em menos de 20 anos ele pode subir favorecendo a nossa economia novamente. O Brasil já tem uma lei de responsabilidade fiscal, que se usada pode até ajudar a retirar um governo do poder, como acabamos de ver. É preciso cortar os gastos públicos, mas com inteligência, não de maneira simplista, cortando por todos os lados indiscriminadamente.

É notório que o governo que foi retirado do poder possuía como lema “Pátria Educadora”, conseguiu aprovar um aumento dos gastos em educação para se chegar a 10% do PIB até 2024, mas, ao invés de lutar para que se cumprisse essa meta, iludido por manipulações como a que vemos nesse vídeo, o povo ajudou a colocar no poder um governo que vai, no médio prazo, acabar com esse projeto. A PEC é uma das maneiras de se acabar com o sistema público de saúde e de educação no Brasil, pois, apesar de dizerem que somente o montante total dos investimentos públicos serão congelados, e que verba de outras áreas poderá ser deslocada para educação e saúde, é muito difícil de acreditar que isso aconteça. É uma aposta, mas não uma em que eu me arriscaria.

domingo, 20 de junho de 2010

Saramago

É; se apagou uma luz neste mundo. Fui introduzido a Saramago com "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"; depois li "A Jangada de Pedra", um livro muito divertido, especialmente para quem teve contato com as culturas espanhola e portuguesa. Durante muitos meses acompanhei o seu blog "O caderno de Saramago". Foi em uma época de muita escuridão ao meu redor, e ler o seu "caderno" me trazia mais esperança, força e energia, para nada menos que poder continuar com meus afazeres diários e não abandonar tudo, todos os meus sonhos. Disse Falabella na "Isto é" que a maturidade nada mais é do que aceitar a nossa galopante fragilidade. Nesse sentido quero ser sempre imaturo, inocente como Saramago. Só tenho a lhe agradecer... Ele vai fazer falta para este mundo, mas felizmente deixou a sua obra, que aí está pra quem quiser. Agora é nossa vez de cumprir o nosso papel...

sábado, 27 de março de 2010

A Guerra dos Mundos e as brasileiras

Estava eu na estação de trens de Praga, esperando para tomar o trem em direção à Viena, quando, sentado tomando um cafezinho em um bar dentro da estação, escutei um idioma familiar. Eram duas brasileiras conversando. Instintivamente, sentindo-me sozinho como estava, tentei me aproximar. Cumprimentei-as dizendo a ridícula sentença: -Oi, são brasileiras?

Uma até que foi simpática. A outra, não fez questão nem de virar-se de frente para mim. Não sei por que algumas mulheres sempre acham que estão sendo cortejadas… Eu somente queria conversar um pouco. Saber qual estava sendo a experiência delas na Europa. Quem sabe até contar um pouco da minha. Mas não teve jeito. Mais arrogantes elas ficaram quando chegou a terceira, que tinha acabado de comprar um livro. Nem me apresentaram à mais nova integrante daquela conversa sem futuro, nem presente. Decidi dar uma olhada na livraria. Saí do bar dizendo tchau e pensando: - Até nunca mais!

A livraria era interessante, mas no meio de todos aqueles livros em checo eu estava me sentindo um cego. (Em italiano esse é um tipo de brincadeira típica, pois as palavras para cego e checo são exatamente as mesmas.) Felizmente, por ser um lugar com um fluxo de turistas muito grande, a seção de livros em inglês era muito boa. No meio de muitos livros "Fashion" e caros encontrei uma jóia. Quatro livros de H. G. Wells contidos em um só volume, em papel bastante leve e não muito volumoso. "Time Machine", "The War of the Worlds", "The Invisible Man" e "The Island of Dr. Moreau". O preço: 99 Coroas Checas ou algo em torno de 10,00 Reais. Muito barato considerando que o preço de um livro semelhante, um único livro porém, no Brasil, hoje, custa em torno de uns 30,00 Reais.

Feliz da vida, fui em direção às plataformas de embarque. Entrando no trem, quem eu encontro? As brasileiras! Aí que elas resolveram ser menos simpáticas ainda. Será que pensaram que eu as estava perseguindo? Menos mal que agora eu tinha um livro para ler. Comecei por "War of the Worlds" e fui imediatamente hipnotizado pela história. Pode parecer uma trama bastante inocente. A invasão da Terra por marcianos. E a questão aqui não é acreditar, ou não, em discos voadores. Wells dá imediatamente um enfoque muito interessante ao ocorrido na sua história.

And before we judge of them too harshly we must remember what ruthless and utter destruction our own species has wrought, not only upon animals, such as the vanished bison and the dodo, but upon its inferior races. The Tasmanians, in spite of their human likeness, were entirely swept out of existence in a war of extermination waged by European immigrants, in the space of fifty years. Are we such apostles of mercy as to complain if the Martians warred in the same spirit?

Existem muitas outras discussões muito boas ao longo do livro: coisas que vão desde o papel da religião em tempos de calamidade, a reação das pessoas perante a eminência real do perigo até nossos hábitos alimentares etc. É um estilo muito diferente do de Julio Verne. Esse último, até onde pude perceber, sempre teve os Europeus como messias que possuem o verdadeiro modo de vida evoluído e civilizado. Me parece até que Wells faz uma crítica direta ao pensamento embutido nas incríveis histórias "vernianas".

Depois de devorar algumas páginas desse maravilhoso livro, acompanhando esporadicamente a neve que caía do lado de fora do trem, formando paisagens alvas com um tom purificador reconfortante, chegamos em Viena. Ir até o albergue onde havia feito uma reserva foi muito fácil. Demorei um pouco somente porque parei na estação para pedir informações sobre o transporte público em Viena, e saber como me organizaria com relação a isso nos próximos dias. Abrindo a porta da recepção, quem eu vi que estava dando entrada no mesmo albergue? As brasileiras!!!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Por um fio

O livro "Por um fio" de Drauzio Varella foi-me recomendado por tratar-se de uma coletânea de relatos curtos, em princípio despropositados, mas cuja reflexão posterior sempre traz alguma lição, seja de vida ou de moral.

Para mim o Dr. Drauzio Varella ficou conhecido pelos seus programas na 89.1 de São Paulo, quando era "A Rádio Rock". Posteriormente assisti o filme baseado no seu livro "Estação Carandiru", e finalmente li o próprio livro. O estilo de escrita de "Por um fio" é muito semelhante ao de "Estação Carandiru", mas em "Por um fio" ele deixa muito mais claro a sua experiência com doentes em fases terminais, de câncer ou AIDS.

Este é um livro para ser lido e refletido com muita calma e deve servir de fonte de inspiração para muitos médicos. Foi difícil encontrar nele um relato que não me deixasse emocionado, comovido. Mas não somente, e sim principalmente, a maneira simples e humilde com que Drauzio Varella compartilha sua experiência de décadas lidando com o limite entre a vida e a morte faz deste livro algo muito precioso. Na minha opinião, todos os médicos deveriam ter este livro entre os seus manuais de boa conduta.