segunda-feira, 4 de junho de 2007

A Serpente Emplumada

Recentemente não se encontrava tranquilo. As notícias o deixavam ansioso. Despertava inúmeras vezes no meio da noite sem saber bem a razão. Queria fazer algo, mas não sabia o quê. Tinha uma grande dúvida na sua cabeça: atuar ou deixar as coisas acontecerem? Seguramente o mundo como ele conhecia estava correndo perigo.

– A vida como a conhecemos levou alguns bilhões de anos para chegar a este estágio de evolução – pensava –. Foi um processo muitíssimo lento. Os primeiros homens apareceram há alguns milhões de anos apenas. Entre milhões e bilhões há muita diferença! Assim como entre milhões e milhares, escala de tempo que pode ser usada para dizer desde quando usamos a escrita para expressar nossas idéias e impressões sobre o mundo. Mas se as coisas continuarem no rumo em que estão, é bem provável que em dezenas de anos, ou seja, um milésimo por cento do tempo que o próprio homem levou para atingir o seu atual estágio de evolução, tudo mude profundamente.

De um lado estavam os ecologistas e ativistas, que queriam preservar a natureza e seguir o rumo aparentemente natural das coisas. Defendiam apaixonadamente a preservação do planeta e das suas formas de vida como as conhecemos atualmente. Do outro lado estava a forte corrente dos que acreditavam no homem como o grande regente da natureza. Para eles não seria nenhum problema se o homem tivesse que adaptar-se no futuro a um mundo com menos espécies animais e vegetais, um clima muito mais instável, uma alimentação quase totalmente artificial. Tudo isso seria parte de uma evolução inevitável, um processo pelo qual o mundo tinha que passar. No meio destes dois grupos estava a grande maioria à qual ele pertencia até pouco tempo atrás, que não se preocupava muito com o significado das mudanças que estavam ocorrendo. Seguiam vivendo sem preocupações e viviam seguindo a corrente impulsionada pelos que acreditavam controlar a natureza.

Mas o que o havia despertado para estas questões de uma hora para outra? Ocorreu que certa manhã foi despertado por um tremor. Mas não um tremor desses que vinham do seu interior. Era um tremor distinto, muito mais forte e incontrolável. Era um tremor surgido das mais profundas entranhas da Terra. Um terremoto havia sacudido toda a sua cidade e muitas mais, e também o havia estremecido. O tremor que o havia posto em estado de alerta também despertou algo dentro dele. Havia percebido que o homem não tinha tanto controle sobre o seu futuro e sobre o futuro do mundo. Será que a natureza estava apenas esperando para dar o seu bote final e acabar com a humanidade de uma vez por todas? Será que a teoria de Gaia, a Terra viva, estava correta, e o “nosso” planeta, nos reconhecendo como uma espécie de vírus ou bactéria, começaria a nos atacar com todos os seus anticorpos disponíveis?

Ele sentiria na própria pele muitas dessas defesas da Terra na viagem que resolveu empreender em busca das respostas às questões que lhe perturbavam tanto. Era muito comum entre os homens buscar respostas às suas questões existenciais em algum lugar muito longe de onde se encontravam eles próprios, e acabarem perdidos para sempre. Mas ele, no fundo, sabia bem o que queria. Havia um último exemplar de uma espécie de animal que vivia nas montanhas. Era incrivelmente bonito, com suas penas coloridas, olhos brilhantes e bico robusto, de cor que variava gradualmente desde o branco da sua calda até o negro do seu bico, passando por basicamente todas as cores do arco-íris. Era conhecido como a serpente emplumada. Imaginou que ver este animal em carne e osso poderia ajudá-lo a responder alguns de seus questionamentos.

O caminho para tentar encontrar este animal não seria fácil. Ele habitava o pico de uma das montanhas mais altas da Terra, coberta de neve, mas banhada periodicamente pela lava dos vulcões que a haviam formado e seguiam moldando-a. Ao norte e ao sul estavam grandes cadeias de montanhas sem nenhum caminho para se aproximar dos picos. À oeste estava o mar, imenso, gelado e revolto, que atingia as paredes das montanhas com a força de golpes pesados e precisos, empurrados por ventos de centenas de quilômetros por hora. Do lado oriental o vento não era muito diferente, mas o mar de água dava lugar ao mar de areia. Um deserto seco, quente e sem vida era o que separava os homens das montanhas por este lado.

Fisicamente estava mais ou menos preparado. Totalmente era impossível, mesmo que fosse o maior esportista de todos os tempos. Psicologicamente era ainda mais difícil, devido a todas as adversidades e à solidão do caminho. Ainda no começo da caminhada, mas já no meio do deserto, enxergando as montanhas geladas que o esperavam, sentido o calor do sol aplastando todo o seu corpo, a boca seca com a língua grudando onde quer que encostasse, os lábios rachados, precisando de água mais do que qualquer outra coisa, começou a pensar: – Por que estou fazendo isso? Qual o sentido de deixar o conforto da cidade e me meter nestes lugares inóspitos? E como este animal poderá ajudar a resolver meus problemas existenciais? Vou voltar. Não, tenho que continuar. Tenho que manter em mente minha intenção inicial. Eu sabia que seria difícil. Mas eu não aguento mais... Vamos, você pode!

Finalmente, depois de muito tempo, muitas dificuldades, muito esforço, suor e sacrifícios ele estava chegando ao cume onde esperava encontrar o último exemplar de que se tinha notícia da serpente emplumada. Neste momento o tempo era bom. Não havia vento, os raios do sol, que já havia nascido há algumas horas, esquentavam o seu corpo, que ainda estava gelado devido ao frio da manhã. Surpreendentemente o ninho era visto com facilidade. Lá estava o tão famoso pássaro-serpente. O susto foi grande, de ambas as partes. Ele teve tempo apenas de recobrar os sentidos e ver aquele grande animal com suas asas abertas, apoiado sobre a sua calda, saltar montanha abaixo e deixar o seu lar. Aproximando-se do ninho, ainda com medo e um pouco decepcionado, observou que ali havia um ovo... e a calma beijou a sua alma...

Um comentário:

Juan Barranco disse...

hope, a human characteristic, hope...